segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O Chefe não estava


Um amigo meu contava-me este fim de semana que tinha ido pela primeira vez a um restaurante estrelado numa cidade onde estava de visita. Fiquei curioso para saber como tinha corrido a experiência até porque é um espaço relativamente novo que eu também não conheço e para o qual tinha bastantes expectativas. Esse meu amigo, verdadeiro gourmand e grande conhecedor do meio confessou-me que as coisas não correram nada bem e que a impressão final foi muito decepcionante tendo em conta as expectativas. Como eu já conhecia algum do trabalho anterior do chefe em questão e tenho dele uma boa impressão, estranhei o veredicto. A menos que... Ouve lá, o chefe estava presente? Não, não estava nesse dia, respondeu. Se calhar isso explica muita coisa, rematou.

Pois, lá explicar, explica mas não deveria justificar. Mas esta é uma pecha que tenho encontrado muitas vezes em restaurantes portugueses com pretensões que ficam com a imagem afectada por uma sucessão de pequenas coisas que não sendo cada uma delas especialmente grave, fazem no conjunto passar uma imagem não consentânea com o estatuto alcançado.

Seja pela desatenção de esquecer um ingrediente, ou às vezes até um prato na sucessão do menu, seja por deixar passar um ponto de cozedura, por encontrar uma espinha ou um osso onde eles não deveriam estar, por ter sal ou pimenta em excesso, pelo molho que estava deslaçado, ou a pele do bicho que não estava com o crocante que devia, seja ainda por uma falha grave no serviço, a verdade é que são já demasiadas vezes em que se notam diferenças sensíveis entre uma e outra noites que não eram suposto haver.

Muitos serão levados a pensar que o estatuto mediático que os chefes hoje em dia alcançaram faz deles muitas vezes estrelas incontornáveis e que portanto a sua presença ou ausência nos restaurantes em que dão a cara se faça devidamente notar. Até certo ponto poderemos compreender que há dias e dias, certo?

Nada mais errado. Primeiro, o preço final que o cliente paga não varia de dia para dia em função do chefe estar ou não presente. Depois se se atinge um estatuto de excepção, se até lhe foi atribuída uma estrela, isso quer dizer que estamos perante um estabelecimento de altíssimo nível, que se faz pagar muito bem e que por isso não admite falhas de profissionalismo tão elementares.

Temos chefes muito bons, criativos e tecnicamente bem apetrechados. Temos uma cozinha de base deliciosa e com personalidade, assente em tradições ancestrais. Temos  alimentos e ingredientes de qualidade irrepreensível que são disputados a peso de ouro por alguns dos grandes cozinheiros do mundo.

O que nos falta, então? Coisa pouca, apenas três itens na minha opinião: consistência, consistência, consistência. Isto é, basicamente fazer o trabalho diário como se estivéssemos a jogar a final dos campeões. E claro, formar e manter uma equipa que não viva ofuscada pelo brilhantismo do chefe mas se sinta ela própria uma estrela que tem que provar todos os dias o seu virtuosismo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Vinho do Porto: Tawny ou Vintage?



Luis Lopes, no editorial da Revista de Vinhos deste mês, discorre sobre o vinho do Porto e fala da velha dicotomia entre os vintage e os tawnies velhos. Para quem não está dentro do assunto, estamos a falar de duas categorias superiores de Portos, sendo que, simplificando, os vintage são vinhos de qualidade superior, oriundos de uma só colheita e que são engarrafados muito cedo, enquanto que os tawnies são resultado de um lote de vinhos de vários anos que envelhecem lentamente em barricas ao longo dos anos e que só pouco antes da colocação no mercado são engarrafados. Daqui resultam vinhos muito diferentes, embora ambos fascinantes e misteriosos.

Costuma dizer-se, com alguma razão, que o vintage é obra da natureza e o tawny é obra do homem.
Apesar das diferenças, estes dois estilos têm, na minha opinião, uma particularidade em comum. Só atingem a sua plenitude com alguma idade. Sobre os tawnies novos nem vale a pena perder muito tempo. Até pelo preço que chegam ao mercado e os vemos expostos nas prateleiras dos supermercados, é fácil chegar à conclusão que aquela cor aloirada não pode resultar do envelhecimento natural e essa coisa da galinha gorda por pouco dinheiro é uma impossibilidade prática. No que se refere aos Porto vintage novos, reconheço que a situação é diferente porque estamos a falar de vinhos de gama superior e também porque há consumidores que gostam deles novos e pujantes, carregados de cor e de fruta. Em tempos houve uma moda, sobretudo nos EUA, que achavam os novos vintage como a companhia ideal para um charuto, Não partilho inteiramente esta opinião mas entendo o conceito.

Seja como for, nada se compara ao prazer de experimentar um vinho do Porto de qualidade, sujeito à prova do tempo. Quem já teve a fortuna de provar Portos velhos, sabe que estou a falar dos melhores vinhos fortificados do mundo. Provados ligeiramente refrescados (nunca à temperatura ambiente) eles conseguem mostrar o melhor das suas virtudes.  E tendo tido oportunidade, por razões de oficio e de circunstância, de ter provado tanto velhos vintage como tawnies envelhecidos, fui desenvolvendo com o tempo uma preferência que hoje é clara no meu espírito e que aqui assumo.

Para mim, o Porto vintage tem sobretudo um problema de ordem pratica. Como o vinho esteve muito tempo encerrado na garrafa de vidro escuro, sem contacto com o oxigénio, assim que se abre uma garrafa e se enceta aquele cerimonial obrigatório da decantação,começa um processo de oxidação, resultando que ao fim de umas horas o vinho começa a perder qualidades, primeiro os aromas e depois mesmo alguns dos sabores mais interessantes. O Vintage é por isso um vinho cerimonioso que requer um grupo de convivas mais ou menos vasto que consiga despachar uma garrafa no final de um jantar. Outro tanto não acontece com os velhos tawnies ou com os colheitas que são uns tawnies envelhecidos em barricas mas oriundos de um só ano. Como passaram longos anos em contacto com a madeira, desenvolveram um processo lento de oxidação natural que vai clareando cor e desenvolver aromas intensos e vibrantes a torrefacção, frutos secos, casca de laranja, mel, entre outros. A vantagem pratica e não negligenciável é que posso ir bebendo um copo por dia sem significativa alteração das suas qualidades.

Acresce ainda um outro factor a que dou algum relevo. Na tradição inglesa o vintage bebe-se a acompanhar queijo stilton. E a verdade é que o Porto vintage e aquele queijo pungente e musculado é um match feito no céu. Ou com qualquer outro queijo azul, por exemplo. Na tradição portuguesa, em que o vinho doce se bebe a acompanhar a sobremesa, resulta melhor o tawny envelhecido, sobretudo com doces como as tartes de amendoa, de maçã, ou a maior parte de bolos de fatia. No caso de doces com ovos, acho a combinação mais dificil e aí geralmente vou para outra combinação que não carregue o açúcar.

Mas o maior prazer que se pode tirar de um velho tawny é bebê-lo mesmo sem comida! É um final de noite extraordinário, aquele momento em que já saciado o estômago e o espírito nos abandonamos na doce lazeira da conversa interminável entre amigos, sem pressas nem amanhãs. É um vinho que dura pela madrugada fora, que resiste horas no copo, muito para além termos sorvido a última gota, em que os aromas perenes nos ficam a envolver num diálogo vivo e interminável. Puro prazer!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Manchester By the Sea: a fragilidade da condição humana


Há filmes que vemos e descartamos no dia seguinte. Há filmes que nos divertem, outros que nos informam, alguns emocionam-nos. E depois há aqueles - poucos, muito poucos - que não conseguimos esquecer. Manchester By The See será um deles. Não porque seja um dos melhores filmes do mundo (não é!) mas porque nos toca de uma maneira tão poderosa, tão profundamente e tão intensa e que saímos da sala com um nó na garganta.

Não estamos a falar de um melodrama, de situações mirabolantes que só um argumentista criativo seria capaz de engendrar. Não, e é por isso que este filme é-nos quase insuportavelmente doloroso. Porque as situações retratadas são afinal banais, as personagens são vulgares e anódinas, ali não há heróis nem vilões, apenas gente como nós tocada por uma imensa tragédia sem culpa mas também sem remissão. Há uma contenção que percorre todo o filme e que acentua o impasse. Lembrei-me de uma tragédia Sófocles em que os deuses se divertem em colocar os pobres mortais em situações impossíveis e para as quais parece não haver saída. Mas o facto é que há, apesar de tudo a vida continua e seguimos em frente, carregando às costas um peso que não é igual para todos.

Este é um filme que vale pelos silêncios, pelas palavras não ditas, às vezes sussurradas outras só afogadas na dor. É um filme em que o trabalho dos actores se impõe e que só por si vale a deslocação. Casey Affleck é enorme, Michelle Williams brilhante e o "puto" Lucas Hedges uma revelação. É um filme sobre a natureza da nossa condição humana, sobre as pequenas vitórias e as grande derrotas, sobre as nossas frustrações mas também e sobretudo sobre a enorme capacidade de sobrevivência que é inerente à nossa espécie.
Um filme imperdível!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Il Mercato, by Tanka Sapkota: de Itália com amor



Está desvendado o mistério do novo projecto que o chefe Tanka Sapkota sistematicamente referia aos clientes e amigos que o visitaram nos últimos tempos no seu italiano Come Prima. Chama-se Il Mercato, fica no Páteo da Bagatela, na Artilharia 1, em Lisboa  e abre ainda este mês de Janeiro.

Segundo um comunicado de imprensa agora distribuído, Il Mercato pretende ser mais que um simples restaurante. Como o nome indica, inspira-se no conceito de um mercado italiano que procura oferecer uma diversidade de produtos genuínos e ao mesmo tempo combinações de pratos irresistíveis. As possibilidades passam por os clientes poderem escolher os produtos a peso, consumi-los directamente na loja num balcão dedicado, comprar o vinho e fazer as suas próprias combinações. Tentador para os apreciadores da cozinha italiana promete ser a possibilidade de escolher entre mais de 20 tipos de massas frescas produzidas diariamente em frente do cliente, consumi-las no local ou levá-las a peso para casa com os respectivos molhos.

Com um grande foco no produto, garantindo a sua frescura e autenticidade, o espaço tem a pretensão, segundo o seu promotor, de revolucionar a forma habitual como nos relacionamos com os restaurantes italianos. Sapkota promete trazer de Itália de avião a  mozzarella de búfala do dia directamente da Campania, entre outros produtos exclusivos.

Lisboa está cada vez mais cosmopolita!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Eu, Daniel Blake: um murro no estômago!


O filme do cineasta britânico Ken Loach é um retrato poderoso e profundamente humano de uma certa realidade social que muitas vezes teimamos em não reparar. Falo por mim. Nunca alinhei nas teorias neo liberais hoje em tão em moda de que o mercado é a solução para tudo. Não é! Pelo contrário, acho que o estado social que vingou na Europa após a 2ª guerra mundial, e entre nós apenas a seguir ao 25 de Abril, é a maior criação da humanidade pela forma como conseguiu integrar a generalidade da população num conjunto de direitos básicos  que penso serem inerentes à nossa condição humana.

A verdade é que esta conquista civilizacional dá-nos um conforto ilusório, reforçado pelo facto de sabermos que ela é alimentada pelos nossos impostos, o que origina muitas vezes uma certa desresponsabilização pelos problemas subsistentes. E depois vemos que esse estado providência, generoso nos objectivos, esbarra muitas vezes numa burocracia legalista e implacável que tem sempre mais em conta os regulamentos e procedimentos estabelecidos que as condições e as necessidades específicas do individuo em concreto que é suposto apoiar. É nesta contradição dos termos que se joga a trama do filme levando até ao limite do absurdo uma situação kafkiana em se vê envolvida a personagem principal, Daniel Blake, um marceneiro de 59 anos, viúvo, info-excluído e vitima de um recente ataque cardíaco que o impede de trabalhar mas que não consegue receber a pensão a que teria direito porque não sabe preencher um formulário on line ou não encaixa em nenhuma das situações tipificadas pela segurança social.

Não se pense contudo que o filme é apenas uma luta inglória do individuo contra a máquina burocrática. É também profundamente comovedor ver como nas situações mais penosas, mesmo no fundo do abismo para que somos atirados, afinal são as pessoas que podem fazer a diferença. Na sua demanda inglória por gabinetes, centros de emprego, banco alimentar, onde a par da indiferença institucional se encontram também algumas almas compassivas, Daniel cruza com Katie, uma jovem mãe solteira com duas crianças, desenraizada como ele, e também ela uma vítima que não passa pelas malhas do sistema. Para mim, é a mensagem mais marcante do filme de Loach. Na interajuda entre os dois seres desvalidos nasce uma ligação forte que quebra a barreira do isolamento e que permite entrever uma luz ao fundo do túnel.

Numa película em que seria fácil puxar pelo melodrama ou pelo rodriguinho, a narrativa mantém-se contida, linear, rejeitando os arabescos ou sentimentalismos piegas. Um filme que interroga as nossas certezas e nos confronta com a poder cru da realidade.

A não perder.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Fortaleza do Guincho: Rendido!



Tenho uma relação de já há alguns anos com a Fortaleza do Guincho. Em rigor não posso cair na tentação de dizer que é o melhor restaurante (detesto estes títulos absolutos e definitivos que não querem dizer nada) mas posso assegurar que é daqueles poucos em que sempre me senti bem e onde sempre gosto de voltar. Gosto do edifício, aquele velho forte militar do século XVII, bem convertido num boutique hotel de charme. Gosto da soberba vista sobre o oceano, da forma como as aguas quase nos vêm lamber os pés quando batem com estrondo nas rochas do promontório. Gosto do requinte um pouco demodé daquela sala de jantar, cheia de luz e onde o sol se demora a por antes de mergulhar definitivamente lá longe sobre o mar. Gosto ainda muito do serviço, simpático, sempre atento, com um bom equilíbrio que é sempre complicado de manter entre a afabilidade e o profissionalismo.

E, claro, tenho apreciado as subtis e graduais alterações que tenho notado no estilo da sua cozinha desde os tempos que já lá vão em que o famoso chefe francês Antoine Westerman se tornou consultor e o restaurante entrou na categoria daquilo que se convencionou chamar fine dining. Lembro-me ainda bem do que foi o trajecto do restaurante com o chefe executivo Marc Le Ouedec. Primeiro uma clássica cozinha francesa, depois, lentamente, a descoberta dos produtos portugueses e forma como lentamente os começou a integrar nos menus e a fazê-los brilhar em pratos inspirados. Gostei especialmente do consulado do chefe seguinte, Vicent Farges, sobretudo na última fase em que se libertou definitivamente da tutela de Westerman e assumiu sozinho a responsabilidade da cozinha. A base da sua cozinha e as técnicas continuaram a ser francesas mas ninguém antes dele tinha tirado tanto partido dos mariscos e peixes da nossa costa e elevá-los ao altar da perfeição. Sim, eu era daqueles que achava uma injustiça a falta da segunda estrela Michelin.



A nova Fortaleza com Miguel Rocha Vieira

Por isso, quando há pouco mais de um ano apareceu a notícia da saída de Vicent Farges da Fortaleza, confesso que a primeira sensação foi de um certo desconforto. Não gostamos de abdicar aquilo que temos por adquirido. O nome do novo chefe executivo,  Miguel Rocha Vieira (MRV), despertou-me sentimentos contraditórios. Gostei muito da aposta num cozinheiro português, contrariando a ideia que fez cá vencimento durante muito tempo que os chefes de fine dining com estrelas ou aspirantes a estrelas teriam que ser estrangeiros (obrigado José Avillez por ter desbravado este caminho!). Por outro lado, nada sabia dele, para além ter já conquistado a estrela no restaurante Costes, em Budapeste (a primeira da Hungria!) e de aparecer muitas vezes como júri em concursos de televisão com uma imagem nem sempre bem conseguida.

Quando a simpática e muito profissional Ana Músico, responsável pela comunicação da Fortaleza do Guincho convidou uma pequena poule de jornalistas e gastrónomos a visitar o restaurante e experimentar o novo menu, já da responsabilidade do novo Chefe, as impressões resultaram um pouco inconclusivas. Porque se por um lado já se percebia ali, naquelas propostas, um grande domínio de técnicas, uma atenção no detalhe e uma certa irreverencia refrescante, tornava-se difícil compreender um linha de rumo, uma coerência estruturante da nova carta, com várias propostas que sendo em si interessantes, resultavam para mim algo confusas no conjunto. Percebia-se que se estava ali a construir alguma coisa, percebia-se o desejo de ruptura com o passado recente, que se descortinava também na decoração do espaço, na nova aparelhagem da mesa num certo despojamento estilístico mas não era claro, pelo menos para mim, para onde se pretendia caminhar.

2ª volta conclusiva

Um ano depois. tenho que confessar, tudo agora é mais claro. Quis o acaso que voltasse ao restaurante duas vezes com um ligeiro intervalo, uma num almoço particular e noutra, a novo convite da casa e as coisas começaram a fazer sentido. Há o desejo assumido de honrar uma tradição gastronómica portuguesa, pondo em destaque os produtos nacionais, apelando a uma memória de sabores genuínos e inserindo-os numa encenação vistosa, em geral bem conseguida com um ou outro pormenor excessivo ou de gosto mais duvidoso.

As entradas





Por exemplo, logo nos snacks de entrada evoca-se a prática quase caída em desuso da secagem do peixe ao sol na Nazaré com a espectacular Brandade de carapau sobre a telha de tinta de choco e grão-de-bico. Pena que o vistoso carapau seco sobre a rede seja só para vista, contrariando o velho princípio de que tudo o que vem para o prato é comestível. Noutro snack, é extraordinário de sabor  o micro Pastel de massa tenra de caldeirada de safio que vem acompanhado por um shot de cerveja artesanal. Brilhante a ideia do Habitat de percebes, em que os comensais são convidados a aspergir um pó de algas sobre os sabores delicados dos moluscos, envolvidos por um puré de laranja e uma maionese de ostras contrapondo aos sabores mais vincados dos cogumelos shimeji braseados. Pungente de sabor, o Pimento grelhado, recheado com a essência da cabeça de peixe e do creme de pimentos vermelhos.



Entre as entradas e os pratos, põem-nos na mesa uma bonita pedra polida onde parecem jazer quatro coloridas criaturas marinhas. É um engano e uma maldade! São manteigas, senhores, de sabores intensos e misteriosos, que não resistimos a barrar nos pães crocantes, um tortura viciante a que dificilmente conseguimos resistir.

Do mar

Entrado nos pratos, o Carabineiro do Algarve estava irrepreensível bem conjugado com as várias texturas das cenouras e citrinos, acentuando o toque de frescura a que o caldo das cabeças do marisco, que é vertido depois, empresta uma grande complexidade.





















Outra revisitação leva-nos a Setúbal e à memória do Choco frito, aqui servido sob a forma de três pequenos nacos com maionese de bergomota e menta. Para mim é um dos exemplos da decoração maximalista e excessiva com a carcaça do choco seco, das conchas e da rede de pesca a pesarem visualmente no conjunto. Mas o "momento", como agora se diz, é salvo pelo belo Filete de salmonete a vapor (foto da direita) com os tentáculos do choco e o molho da sua tinta.



Notável é o prato de peixe seguinte: um fino Filete de pargo com cevadinha em forma de risotto e , ladeado de dois molhos de funcho que não se fundem e entre si contrastam.

Da terra






















Na ementa que nos foi servida, a carne foi representada por um prato que MRV chamou "Da Cabeça aos pés". Como o nome deixa adivinhar é uma evocação do tradicional aproveitamento total do porco que vem aqui servido em forma de naco acompanhado por um saboroso xerém de ameijoas e cebolas (lembrando a carne de porco à Alentejana) e ainda uma terrina do mesmo reco feita com as partes moles do dito. Não posso negar que os sabores eram deliciosos mas a combinação e sobretudo o desdobramento em dois pratos, acabam por resultar um pouco confusos.

Dos doces





















A refeição termina com a apresentação de duas sobremesas. A primeira, chamada Dunas do Guincho,  é muito bem conseguida, tanto em termos visuais como de paladar. Os sabores dos frutos secos em várias texturas, evocando o pinhal das redondezas, é muito apelativa e conquistará o agrado geral. A segunda, chamada de Memórias da minha infância, é menos espectacular (tirando o facto do próprio prato vir tingido de um vermelho vivo comestível) mas agradou-me por ser leve e pouco doce. É um tributo à tigelada, acompanhado de um sorbet de marmelo e marmelada, num bom equilíbrio entre a acidez e o açúcar.

Um ano depois de assumir a chefia do restaurante, a cozinha de MRV revela-se com um princípio identificador, assumindo sem complexos um corte com o passado recente. A recriação de pratos baseados na cozinha tradicional ou na sua interpretação mais ou menos livre, ao mesmo tempo que se recuperam ingredientes e sabores, alguns deles já quase perdidos na memória, tem indiscutível mérito e pode funcionar como um impressivo cartão de visita da gastronomia portuguesa a quem nos visita. Sabendo que a maioria dos clientes da Fortaleza são estrangeiros, penso ser a opção acertada.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Era assim o meu Natal


Não faço parte daquele tipo de pessoas que gostam de proclamar alto e bom som o seu desprezo pelo Natal. Para mim, o Natal é ainda uma época especial e se é verdade que à medida que avançamos na idade, as coisas se vão diluindo um pouco e a inocência há muito se foi, continuo a celebrar a festa a a manter vivas tradições que fazem parte da nossa identidade.

O Natal, para mim, remete inevitavelmente para a infância, aquele tempo absoluto que nos marcou e moldou definitivamente. A minha infância foi passada nos anos 60 no Tramagal e é daí que tenho as mais impressivas recordações do Natal. O nosso Natal era sempre vivido só a quatro, com os meus Pais e o meu irmão. Numa família conservadora e profundamente religiosa, o símbolo do Natal era evidentemente o presépio que a árvore de Natal só muito mais tarde entrou em casa por pressão de nós as crianças, certamente já contaminadas por influência exterior. Mas a verdade é que a montagem do presépio nos entusiasmava bastante. Lembro-me de ir para o pinhal com um carrinho de mão para apanhar musgo e algumas pedras para a construção da gruta natalícia. Havia evidente prazer no trabalho de montar esse cenário idílico no qual colocávamos depois as figuras das personagens depois de cuidadosamente desembrulhadas das caixas onde dormiram durante o resto do ano. Não era um presépio rico, apenas com meia dúzia de peças, incluindo a Sagrada Familia, alguns pastores e umas poucas ovelhinhas. Mas era uma representação que preenchia toda a nossa imaginação e com a qual nos entretinhamos a brincar, o que levou uma vez que tivéssemos partido o Menino Jesus para nosso desespero. Minha Mãe ensinava-nos que as nossas boas acções (ou sacrifícios, já não sei bem!) que pudéssemos praticar faziam crescer as palhinhas da manjedoura que aqueciam o Menino  e levávamos o conselho à letra.

Naquele tempo não havia ainda Pai Natal, tido como um símbolo mais ou menos pagão. Os pedidos de presentes eram feitos ao Menino Jesus a quem escrevíamos cartas, assegurando que nos portamos bem e de quem depois esperávamos com ansiedade se os nossos desejos tinham sido satisfeitos. Quando éramos muito pequenos, não tínhamos autorização para ficar acordados até à meia noite pelo que a magia da abertura dos embrulhos só acontecia no dia 25 de manhã. Já um pouco mais crescidos, começámos a ir à Missa do Galo e esse ritual passou a fazer parte da tradição natalícia. Ao contrário do que se possa pensar, devo dizer que gostava de ir à Missa do Galo. Era uma Missa festiva, com muitos cânticos e uma atmosfera especial, fruto da presença de muitas pessoas vindas de fora e que eu nunca via no resto do ano. A Missa terminava sempre com a cerimónia do beijo ao Menino Jesus e encantava-me ver as longas filas de gente à espera de se ajoelharem em frente do padre que exibia a imagem reluzente (e certamente lambuzada!) do Menino.

Indissociável do Natal eram também as tradições à mesa. Minha mãe era uma boa cozinheira e excelente doceira e nessa época fazia questão de nos tornar isso bem evidente. O prato do jantar da véspera era o bacalhau que eu na época não apreciava por aí além mas que compensava depois pela prova dos muitos doces postos na mesa. Nos fritos havia sobretudo dois tipos de coscorões, um com um formato de uma flor que o meu Pai ajudava a fritar, usando uma pequena cana recortada com dentes que ajudavam a massa a rodar no óleo e outros que a minha Mãe chamava chamava de "turcos" e que eram uma faixa de massa muito fina e quebradiça enrolada em várias voltas e envolta em açúcar e canela que eram os meus favoritos. Havia ainda as broas de mel de que já falei, um bolo imperial do qual ainda não consegui reproduzir o ponto certo, pudim de ovos, uns pequenos bolos amarelos em forma de papel chamados "pastilhas de Londres", entre muitos outros.
Uma festa para os olhos, uma alegria para os estômagos que não raro era seguida de desarranjos intestinais inevitáveis!

Era assim o meu Natal.